Segundo a amiga e escritora Patrícia Reis, Inês Pedrosa é uma mulher que sempre anda carregando na bolsa um livro (como uma arma contra o mundo que a espera) e um bloco de anotações ("Porque sempre pode me aparecer um romance"). Foi munida deste bloco que Inês passou passou meses perseguindo seus amigos homens. Entre almoços e encontros recolhia frases e filosofias. No lançamento do livro no Porto, entre a platéia se encontrava um dos "matéria-prima" para seu romance "On Íntimos", marotamente denunciado pela escritora.
Com esses pedaços de gente, ela construiu cinco personagens masculinos que habitam o universo de Lisboa. Uma Lisboa urbana, mundana e cotidiana. Retratada em comunhão com seu tempo de chuvas torrenciais, vento forte e calor sufocante. Os cinco amigos se encontram para jantar uma vez por mês. Acompanham o jogo de futebol, bebem, flertam com a garçonete. Afonso é oncologista marcado pela tragédia , com pose de galã, relacionamentos confusos e profundos e o principal narrador daquela noite. Guilherme, Filipe, Augusto e Pedro são seus amigos mais próximos e nem por isso mais conhecedores de sua vida. Mas são íntimos. O bastante para rirem uns dos outros, para se confidenciarem e se arrependerem, para não se magoarem se o outro não lhe escutou falar.
A escrita de Inês Pedrosa não deixa que seus "machos" caiam no estereótipo. Os capítulos são construídos de forma que a posição de narrador circula pelos personagens e eles descontróem-se uns aos outros para o leitor revelando as camadas de cada história. Da mesma forma que os amigos reais conhecem as verdades nas nossas mentiras e as mentiras por trás de cada frase. As mulheres aparecem como personagens destas histórias. Povoam tanto o universo masculino como eles povoam o delas.
E revelam-se para o leitor. O que nunca conseguiu amar, o que acaba de descobrir o amor e não sabe o que fazer dele. Sua relação com a paternidade e o amor incondicional e sempre desprezado em prol dos amores maternos. As paixões e as conquistas. Os íntimos são filhos de uma geração que viveu a ditadura e acompanhou a chegada da democracia, que viu aparecer a necessidade do preservativo nos relacionamentos, que hoje alcançou a meia-idade e passa mais tempo a reviver o que se passou do que o presente.
Inês se aventura pela primeira vez nas amizades e relacionamentos de um ponto de vista eminentemente masculino. Em "Nas Tuas Mãos" havia trazido três protagonistas femininas, também dividindo com Lisboa suas vidas.Este também é um livro fincado nas cidades, sai de Lisboa, passa pelo Porto e retorna. Mais uma vez, a autora tem uma escrita clara, sem floreios e carregada de sentimentos. No fim, não há dúvidas, ficamos do lado dos homens.
"Os Íntimos" será lançado pela editora Alfaguara no Brasil em Novembro.
Em Portugal, é editado pela Dom Quixote, tem 272 páginas e custa em média 15 euros.
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domingo, 11 de julho de 2010
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
E o amor, por Barthes
A aula era sobre estratégia, os mestrandos por isso se surpreenderam quando o professor iniciou a leitura de "Elogio da Lágrima", do livro "Fragmentos de um discurso amoroso", de Roland Barthes. Sim, a lágrima. No fundo, tudo a ver com estratégia.
Mas o melhor foi a descoberta do livro em si. Escrito em forma de verbetes de dicionário, ele trata do amor. Sim, é o Barthes que você pensa que é, e sim ele trata do amor. E como fala. Barthes traz os conceitos da filosofia, da sociologia, da antropologia na publicação de 1977. No Brasil relançada pela Martins Fontes em 2003. Ele trata com o coração o assunto: "O sujeito apaixonado é atravessado pela idéia de que está ou vai ficar louco"
Filho único, órfão de pai, sustentando pela mãe que encadernava livros como profissão, homossexual assumido na década de 50. O semiólogo Roland Barthes é sobretudo, para mim, um excelente escritor. Da página 49:
"Tudo partiu deste princípio: que não era preciso reduzir o enamorado a uma simples coleção de sintomas, mas sim fazer ouvir o que existe de inatual na sua voz, quer dizer, de intratável. Daí a escolha de um método “dramático”, que renunciasse aos exemplos e repousasse na ação única de uma linguagem primeira (sem metalinguagem). Substituiu-se, então, à descrição do discurso amoroso sua simulação, e devolveu-se a esse discurso sua pessoa fundamental, que é o eu, de modo a pôr em cena uma enunciação e não uma análise. É um retrato, se quisermos, que é proposto; mas esse retrato não é psicológico; é estrutural: ele oferece como leitura um lugar de fala: o lugar de alguém que fala de si mesmo, apaixonadamente, diante do outro (o objeto amado) que nunca fala."

Título: Fragmentos de um Discurso Amoroso
Editora: Martins Fontes
Autores: Roland Barthes
Preço: R$ 45,80 e a partir de R$ 12,00 na Estante Virtual
Mas o melhor foi a descoberta do livro em si. Escrito em forma de verbetes de dicionário, ele trata do amor. Sim, é o Barthes que você pensa que é, e sim ele trata do amor. E como fala. Barthes traz os conceitos da filosofia, da sociologia, da antropologia na publicação de 1977. No Brasil relançada pela Martins Fontes em 2003. Ele trata com o coração o assunto: "O sujeito apaixonado é atravessado pela idéia de que está ou vai ficar louco"
Filho único, órfão de pai, sustentando pela mãe que encadernava livros como profissão, homossexual assumido na década de 50. O semiólogo Roland Barthes é sobretudo, para mim, um excelente escritor. Da página 49:
"Tudo partiu deste princípio: que não era preciso reduzir o enamorado a uma simples coleção de sintomas, mas sim fazer ouvir o que existe de inatual na sua voz, quer dizer, de intratável. Daí a escolha de um método “dramático”, que renunciasse aos exemplos e repousasse na ação única de uma linguagem primeira (sem metalinguagem). Substituiu-se, então, à descrição do discurso amoroso sua simulação, e devolveu-se a esse discurso sua pessoa fundamental, que é o eu, de modo a pôr em cena uma enunciação e não uma análise. É um retrato, se quisermos, que é proposto; mas esse retrato não é psicológico; é estrutural: ele oferece como leitura um lugar de fala: o lugar de alguém que fala de si mesmo, apaixonadamente, diante do outro (o objeto amado) que nunca fala."

Título: Fragmentos de um Discurso Amoroso
Editora: Martins Fontes
Autores: Roland Barthes
Preço: R$ 45,80 e a partir de R$ 12,00 na Estante Virtual
domingo, 16 de março de 2008
Para quem já gosta de ler

Quem é apaixonado por livros, adora história sobre eles. E descobrir curiosidades sobre esse mundo é sempre um prazer. Como que a leitura silenciosa só teve início na época de Santo Agostinho, pois até então as palavras eram escritas para serem reproduzidas apenas em voz alta. Ou que operários cubanos pagavam uma pessoa para ler em voz alta enquanto eles trabalhavam.
O livro do argentino Alberto Manhuel, "Uma História da Leitura", é um prato cheio nessa área.
Em uma narrativa prazerosa e envolvente, o autor divide com a gente sua paixão pela literatura e vai esmiuçando as fases que os livros e leitores viveram ao longo de vários séculos de história.
Sem contar todos os livros que falam sobre livros e bibliotecas que ele cita e você vai ficando desesperado pra ler também.
- Uma História da Leitura
Alberto Manguel (Companhia das Letras)
Preço médio: R$ 59,00 nas livrarias
quinta-feira, 31 de janeiro de 2008
Dicas para ler e assistir no Carnaval

E quem vai ficar em casa no Carnaval, tem sempre muito a ler, e também pode assistir. Minha recomendação é o livro "Quatro Estações" do renomado, reconhecido e temido Stephen King. O homem anda tão famoso que o comentário é que até a lista da lavanderia se vier com o nome King vira bestseller. Inclusive, o nome dele vem bem maior que os títulos nas capas...
Publicado pela primeira vez em 1983, "Quatro Estações" foge da linha terror que tornou o autor tão conhecido. São quatro histórias um pouco maiores que contos, cada uma relacionada a uma estação. Os norte-americanos chamam a esse tamanho de texto "novel", que não dá pra traduzir com novela pra gente. Das quatro, três viraram filmes maravilhosos. O King tem muita sorte com as adaptações dos livros dele, a gente pode conferir em "Cemitério Maldito", "A espera de um milagre" e muitos outros. Esses três em particular são marcantes.
A primeira história do livro é "Primavera eterna – Rita Hayworth e a redenção de Shawshank", sobre um homem que é preso pelo assassinato da esposa e do amante dela. Na prisão, seus talentos para a contabilidade são utilizados pelo diretor enquanto ele descobre o valor da amizade e da liberdade ali dentro. O filme "Um sonho de liberdade" (The Shawshank Redemption) foi feito em 1994 com direção de Frank Darabont e as atuações de Morgan Freeman e Tim Robbins . Quem não assistiu ainda a esse, pode alugar sem a menor hesitação. É emocionante.
Na segunda parte, o lado negro da juventude é explorado por "Verão da corrupção – Aluno inteligente". Um rapaz de treze anos descobre que um de seus vizinhos é um torturador nazista procurado. Em vez de entregar o homem, o menino passa a chantageá-lo em busca das histórias que compuseram o III Reich. Esse filme não fez sucesso como o "Sonho de Liberdade", mas também é muito bom. "O aprendiz" ( Apt Pupil) foi lançado em 1998, com Ian McKellen, Brad Renfro e David Schwimmer. Bryan Singer dirigiu a adaptação que tem um final diferenta na tela.
Na minha história preferida das quatro, "Outono da inocência – O corpo", a amizade é o carro-chefe da narração. Um grupo de amigos resolve fazer uma viagem de um dia até um ponto da floresta em que supostamente existe um corpo. O encontro dos jovens com a primeira perspectiva de morte e suas ânsias de juventude foram magistralmente retratados no filme "Conta Comigo" (Stand By Me). Esse aqui estourou nos cinemas, sendo considerado o filme que revelou o jovem River Phoenix (que depois teria uma overdose e morreria muito cedo). O filme é hoje um clássico, foi feito em 1987 e tem ainda a participação de Wil Wheaton, Corey Feldman, Jerry O`Connell, e de um novinho chamado Kiefer Sutherland. A direção é de Rob Reiner.
Na última história, que é a que eu menos gosto porque fala muito pouco sobre a natureza humana e vai mais para o lado do sobrenatural, "Inverno no clube – O método respiratório" mostra a luta de uma jovem mãe solteira para ter seu filho. Ainda não virou filme. Ainda.
- Quatro Estações
Stephen King (Objetiva)
Preço médio: R$ 39,00 nas livrarias
Marcadores:
Filmes de livros,
Livro da semana,
Resenhas
terça-feira, 22 de janeiro de 2008
A Mulher habitada

"Duas coisas que não decidi acabaram decidindo minha vida: o país onde nasci e o sexo com que vim ao mundo", disse a autora nicaragüense Gioconda Belli. Agora responda rápido: onde fica a Nicarágua? Eu não sei se é coisa minha ou de todo brasileiro, mas vivo com a certeza de um profundo desconhecimento sobre a América Latina. Tanto política como culturalmente. Pois vejam que descobri uma autora fantástica. Bem aqui na América Central.
"A mulher habitada" é um romance dessa autora que trata de questões políticas, de gênero, de relacionamento humano e de descobrir quem você é no meio dessa confusão que é o mundo.
O espírito da índia Itzá reside em uma laranjeira de onde assiste, na década de 70, à chegada da arquiteta Lavínia a uma nova casa. A índia, por amor ao guerreiro Yarince, deixou seu papel de mulher de aldeia para lutar contra o exército espanhol que invade a América no século passado. Lavínia acabou de chegar da Europa, arrumou emprego em um escritório respeitado e despertou para a realidade imposta pela ditadura entrando no movimento de guerrilha. As histórias são apresentadas por dois narradores: Itzá relembra sua vida (e comenta a de Lavínia) enquanto um narrador nos traz a história da arquiteta e das transformações impostas ao país.
A retratação do período da ditadura militar é perfeita. E a descrição de como corre a vida em Fáguas (país fictício da história) espanta pela similariedade entre a Nicaráguas e o Brasil. Todos no mesmo barco das convenções sociais e censura de pensamento e de voz .
- A Mulher HabitadaPublicar postagem
Gioconda Belli (Record)
Preço médio: R$ 54,00 nas livrarias
Estante virtual: De 20 a 25 reais (sem frete) (valeu pela dica do site, Cris)
domingo, 13 de janeiro de 2008
O Deus das Pequenas Coisas

"O Deus das Pequenas Coisas" é, em meio a tanto já lido, uma das melhores obras que já encontrei.
A indiana Arundhati Roy escreveu uma preciosidade. A história dos irmãos gêmeros bivitelinos Estha e Rahel tem início na década de 60, na mesma localidade em que Roy viveu, Kerala (Índia). Hoje, a autora vive em Deli e tem status de posptar no país, inclusive integrando a lista das 50 pessoas mais bonitas, vê se pode? Não temos nenhuma outra obra dela traduzida em português (essa foi publicada em 1998) e, pelo que pude pesquisar, apesar de muitos artigos e crônicas, não vi outro livro dela publicado nem na Índia. Foram dez anos para escrever esse.
No livro, a Índia está em pleno processo de transformação. O ocidentalismo chega ao país nos modismos, programas de rádio e televisão enquanto as tradições religiosas ainda marcam o compasso da vida de seus habitantes. Enquanto isso, duas crianças de nove anos vivem o terror de ver uma outra criança tomar a atenção e carinho de seu tio, o único pai que elas conhecem. A sua mãe, Ammu, é a única divorciada da pequena aldeia e se destoa no meio em que vive, sufocada na casa da própria família ao mesmo tempo que encanta como fada a vida de "uns certos gêmeos bivitelinos".
A narrativa é apresentada de forma completamente não-linear. Os capítulos se alternam pincelando uma a uma as tragédias sofridas pela família com a vida deles ao longo de mais de dez anos. Vou logo dizer que a história é bem triste, mas a autora guarda para o último capítulo um pedacinho de amor que acalenta todo o livro. É um relato de uma realidade brutalizadora de sonhos de crianças, mas também de sonhos dando esperança à realidade dos adultos.
- O Deus das Pequenas Coisas
Arundhati Roy (Companhia das Letras)
Preço médio: R$ 45,00
Está esgotado em vários sites, mas dá pra comprar no site da editora
Mercado Livre: Tem exemplares de R$ 29,00 até R$ 52,00 (sem frete)
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